Poesia do Mundo / Vicente Aleixandre

UMAS POUCAS PALAVRAS Vicente Aleixandre

Umas poucas palavras

Diria ao teu ouvido. Pouca é a fé de um homem inconstante.

Viver muito é obscuro, e de súbito saber não é conhecer-se.

Mas mesmo assim diria. Pois meus olhos repetem o que copiam:

tua beleza, teu nome, o som do rio, o bosque, a alma só.

Viu tudo e têm-no. Isso dizem os olhos.

A quem os vê respondem. Mas não perguntam nunca.

Porque se sucessivamente vão tomando

da luz a cor, do ouro o ceno

e de todo o sabor o sedimento lúcido,

não desconhecem beijos, nem rumores, nem aromas;

viram enormes árvores, murmúrios silenciosos,

fogueiras apagadas, brasas, velas, cinza,

e o mar, o mar ao fundo, com seus lentos espinhos,

restos de belos corpos, que as praias devolvem.

Umas poucas palavras, enquanto alguém se cala;

as do vento nas folhas, enquanto beijo teus lábios.

Umas palavras claras, enquanto durmo em teu seio.

Soa a água na pedra. Enquanto, quieto, estou morto.

(Vicente Aleixandre)

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