Poesia do Mundo

Narração – Yorgos Seferis

Este homem caminha a chorar

ninguém sabe dizer porquê

às vezes pensam que são os amores perdidos

como aqueles que tanto nos atormentam

à beira-mar no verão com os gramofones.

A outra gente cuida dos seus trabalhos

papéis intermináveis crianças que crescem, mulheres

com dificuldades em envelhecer

ele tem dois olhos como papoilas

como primaveris papoilas cortadas

e duas pequenas fontes na cavidade dos olhos.

Caminha pelas estradas nunca se deita

galgando pequenos quadrados no dorso da terra

máquina de um tormento infindo

o qual acabou por não ter importância.

Alguns outros ouviram-no falar

sozinho enquanto passava

de espelhos quebrados anos antes

de figuras quebradas dentro de espelhos

que já ninguém pode juntar.

Outros ouviram-nos dizer do sono

imagens de horror no limiar do sono

rostos insuportáveis de ternura.

Habituámo-nos a ele bem arranjado e tranquilo

acontece apenas que caminha a chorar continuamente

como os salgueiros à beira do rio que vês do comboio

quando acordas mal disposto numa alba cheia de nuvens.

Habituámo-nos a ele não representa nada

como todas as coisas às quais vocês se habituaram

e falo-vos dele porque não encontro

nada a que vocês não estejam habituados;

as minhas vénias.

Yorgos Seferis

  

In “poemas escolhidos”

trad. de joaquim manuel magalhães

e nikos pratisinis

relógio d´água, 1993

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