Escritas em prosa

Pequenos gestos

Os elevadores podem contar muito do que somos e confrontar-nos com imensas fraquezas próprias e dos outros. Num Verão passado, fui de férias para o Sul de Espanha, eu habitante do Porto, considerava-me um urbanita mais ou menos experiente: fui então confrontado com o expoente máximo da indiferença. Quis o acaso que entrasse no elevador do complexo turístico em que me encontrava, um indivíduo de uma dessas cidades frias do Norte da Europa. Ele não olhou para mim, não me cumprimentou – e até aqui, nada que pudesse surpreender – mas rapidamente virou-me as costas, permaneceu assim toda a minúscula viagem que fizemos e saiu como se eu nunca tivesse estado ali. Experimentei na pele, pela primeira vez, o abandono das metrópoles, a sua indiferença arrasadora. A situação foi tanto mais vivida por mim, porquanto só estávamos os dois no pequeno habitáculo.

É certo que a habitação vertical estrutura um convívio mínimo e desincentiva o contacto pessoal. A isso já estava eu habituado. Foi, contudo, a primeira vez que alguém pretendeu a minha inexistência. A sensação foi muito estranha… Nos filmes americanos que via, desde a minha juventude, tinha reparado em elevadores cheios de pessoas, inacreditavelmente cheios, submersos em silêncio, onde as pessoas viravam as costas umas às outras: como se fossem eles próprios símbolos do vazio.

Quando adolescente, sucedeu-me uma experiência marcante num outro elevador. Estava-se na época das rádios amadoras e eu e o João Miguel tínhamos magicado propor um programa de rádio a uma estação local… O dito estabelecimento radiofónico situava-se num prédio de sete ou oito andares… Entrámos os dois no ascensor, que estava cheio de pessoas, porém no terceiro andar a maior parte saiu: só iriam restar duas raparigas e nós. No último momento, as raparigas saíram para não ficar sozinhas connosco e subiram a pé até ao quarto andar.

Apercebi-me do facto porque suspeitei da acção e me debrucei pelo corrimão das escadas, quando chegado ao quinto piso, e vi-as a acabar de alcançar a pé o patamar imediatamente inferior. O episódio é francamente anónimo e insignificante, a não ser que foi neste momento que me encarei como homem… Para aquelas duas raparigas, nós já não éramos dois miúdos mais ou menos inofensivos: éramos já seres sexuados e plenos de hormonas.

É curioso pensar como pequenos gestos podem modificar de súbito certas opiniões ou sentimentos que mantínhamos sobre o mundo e sobre nós próprios. É também engraçado verificar como esses pequenos grandes gestos, tão indeléveis para nós, passaram despercebidos para os outros. O dito João Miguel, como se facilmente depreende, não se recorda nada desta passagem da nossa infância e adolescência em comum, a mim pelo contrário, o episódio modificou a consciência que tinha acerca de mim próprio e do impacto que eu tinha nos outros.

Anos mais tarde, numa conversa com um primo meu, já reformado, debruçámo-nos novamente sobre os pequenos gestos que por vezes catalizam transformações na nossa vida. Ele tinha passado por uma episódio semelhante: estava já reformado e as suas barbas e cabelos apresentavam a cor alva anunciadora da sabedoria e de outras coisas menos agradáveis… Estava um pouco entristecido: é que, naquela manhã, pela primeira vez na sua existência, uma pessoa cedeu-lhe o lugar num transporte público e ele teve de se confrontar com o facto de realmente estar a entrar na velhice.

Os pequenos gestos nunca terminam…

(texto que participou no programa «Histórias de Vida» da Antena 1 e que foi lido na mesma rádio em 21 de Abril de 2008, conforme pode ver aqui).

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