Curtas / Francisco Duarte Mangas

Transumância de Francisco Duarte Mangas

Pascal Quignard defendia que a linguagem é o seu próprio terceiro excluído. Ou seja: diz-se que qualquer coisa é, diz-se o seu oposto mas é ainda com palavras que se pode discorrer sobre a justiça ou a injustiça dessa dualidade.

Também Magritte no célebre quadro Isto não é um cachimbo demonstrou que os limites da linguagem figurativa podem, eles próprios, constituir-se como objeto da obra de arte.

No livro Transumância, Francisco Duarte Mangas tenta precisamente um texto que se move em dois planos. Um primeiro refere-se à matéria poética expectável: a observação das coisas, os instantes, essa ordem dos significados em que o sim se opõe ao não. A introdução de um segundo plano, porém, distancia-nos do poema, ao relembrar o seu carácter simbólico. Tal como no quadro, Mangas chama a atenção para os limites da dimensão representativa do que se está a ler.

Dir-se-ia que o escritor tenta pôr-se no lugar do leitor – isto é, na sua experiência de leitura. É que o leitor acede não só à matéria poética, mas também à dimensão material e representativa do texto. É este não dito que é revelado no projeto de Duarte Mangas.

O jogo poético e a sua leitura constituem-se como pilares de uma nova superfície de escrita.

«o rebanho escorre,

nunca vi palavra

com tantas ovelhas dentro»

O rebanho escorre referindo-se à dimensão visual do movimento de um conjunto de ovelhas… mas afinal esse movimento não ocorre apenas numa suposta realidade, de que o poetá é testemunha, mas no interior da própria palavra rebanho. É precisamente a leitura dessa palavra que organiza uma nova irmandade entre leitor e autor.

Também aqui:

«cabisbaixo,

o cão arrasta a palavra lobo

emaranhada nos picos

da coleira»

Mangas não é só o autor mas um leitor de si próprio que surpreende «a palavra lobo» nos «picos da coleira» do seu cão imaginário. Somos testemunhas com ele – como se estivéssemos sentados no mesmo banco a observar o animal no regresso da sua luta extenuante – um banco em frente do poema.

A ler. Absolutamente.

.

(Transumância, 2002, Campo das Letras, de Francisco Duarte Mangas).

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