Mário Fragoso / Poesia Portuguesa

Mecânica das palavras, Mário Fragoso

Mecânica das palavras:
É de manhã e ainda nem vejo o rio
A ira entalada na dúvida:
Pronto a escrever um longo manifesto
Sempre interrompido pela tosse
Entre os espectadores
Por exemplo
Vejo entre as lâminas
Insetos que dançam
E através os corpos
Vejo falecer línguas mortas
Eu apareço como uma armadilha na fraqueza do meu discurso
Ambivalência:
Eu queria, é sem dúvida bastante claro
Eu imaginava
A escrita
Eu imaginei-a sem resmungos
Mecânica dos imbecis:
Reler-me em diagonal
Os chamamentos da sede, mecânica dos imbecis, eu volto
Aqui
Nada de visível
Recomeçar o pensamento
Reler a precisão do braille
Recomeçar o pensamento
Amarrotá-lo
Mandá-lo cair
De cima dos telhados
Em baixo
Perto das peles que brincam e cansam
É instintivo
É uma impressão
É o bolor
A impressão de ter enfim entrevisto a imagem
É fazer do mundo um suplicio que se mantem
A reler milhares de vezes:
Largar para clarificar a situação
Pensar-me num estado, quero dizer na geografia do “souvenir”
É preciso denunciar a manhã, é preciso deixá-la aos escravos
A história desde o início:
Eu sabia-o bem antes que tu te voltes para mim
Queria-te ouvir outra vez
Como gritas, como quando eu bato na parede
Dás-me um sinal, precisamos das manhãs
Para acalmar os pontos quentes
Aclamar a multidão que vira pele
Iremos recomeçar a partir do impossível
A partir das trevas
Toca-me agora, agora sem medo
Desfigura-me com a luz das manhãs para que eu veja o símbolo

O sol cheio de dúvidas:
Estou pronto para gritar
Que me roubaram o brilho dos meus dias
Só para ouvir
Bater o martelo na sentença do juiz
A importância das estações:
Tão distante das peles distorcidas
Eu apanho palavras de ti
Palavras EM mim
Encontro-as entaladas debaixo das unhas
E depois afogo-as
Depois gozo-as
E crio uma brincadeira, para fazer delas outra coisa
E quando depois rimo
Arrastando comigo as manhãs
Onde a ultima palavra já estava escrita
Sei que sou apenas mais um jogador vergado
Pelas mensagens da mecânica das palavras sem fim

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One thought on “Mecânica das palavras, Mário Fragoso

  1. Obrigado, sinto-me posteridade ao entrar no teu cantinho. E a posteridade, é um caminho com muita comichão. Quando penso que a minha mãe julga que sou palhaço intermitente, a comichão vira cocegas e desato…A rir. Abraço.

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