Rui Tinoco - Poesia

Ensaios Sobre Dorian Gray – Rui Tinoco

I

estás demasiado enganado

para te conseguires ver no retrato

de Dorian Gray. recusaste

o peso da vida: és gordo,

almoças todos os dias, a horas

certas, bife com esquecimento.

beijas a tua mulher para que

não te fale

não te estranhe;

afagas a filha para que

não te erga os braços.

não tens tempo. ligas

o computador à procura de não

sei quê… e lá está, nunca

te vês realmente ao espelho,

ocupado que ficas com esses

outros ecrãs.

II

Dorian Gray é um ensaio

sobre as mudanças do rosto.

mudanças de que não te apercebes

mas que um dia, subitamente,

surgem evidentes ao espelho

como dedos acusadores a que não

é possível virar costas. onde

estavam elas escondidas até

hoje? em que esconderijos?

e como é pesado saber que não

se vão embora… neste caso,

Dorian Gray é uma mulher

recém entrada na casa dos

quarenta que descobriu

a sua maldição. senta-se

na cadeira desolada e não há

nada a fazer para a reconfortar.

não quer saber de ensaios

sobre a metáfora: só reage

ao amargo, à lição obscura.

em vão torno o livro à primeira

página mas o poema já

vai no fim. essa é a derradeira

mensagem indisfarçável.

*

Inicialmente publicado na e-poezine A Sul de Nenhum Norte

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