Victor Oliveira Mateus

Prosa X, Victor Oliveira Mateus

Por vezes acontece, a meio da noite, sair de casa. Os vizinhos sabem-no e têm-no pelo adensar da loucura. Guio depois pelos bairros limítrofes, saboreio o lenitivo raro do abandono, deste ser do outro lado mesmo ali, ali, no meio do silêncio; saboreio esse tipo de esquírola atravessada na alma da cidade. Evito os bairros da noturna movida, das ruas enxameadas, dos degraus onde os copos de plástico descansam um pouco e as linhas se deixam dividir por cartões de crédito ou navalhas improvisadas. Evito as zonas ribeirinhas pelo apelo maternal que sempre me trazem. Evito tanta coisa e, inexplicavelmente, dou comigo a pensar: na traição de Wagner, na integridade de Allende, na voracidade de Bismark e seus continuadores, no absoluto desapego em Assis. Dou comigo a pensar que as formas de se ser humano nem sequer são muitas, mudando apenas os desempenhos. Por vezes acontece, a altas horas, sair de casa: jovens trôpegos regressam dos bares, empregadas da limpeza, ainda cansadas da véspera, partem nos primeiros autocarros. Uns e outras, o carrossel e a gafaria. Sim, vendo bem, as personagens são sempre as mesmas, apenas se alteram interpretações e tiques. E é então que penso também em ti, mas tu terás de ficar para outra noite, ou outro dia, já que não podes entrar neste tipo de poesia.

*

Negro Marfim, Victor Oliveira Mateus

Fafe, Labirinto, 2015

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