Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA – poema de Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

*

Poema de Fernando Pessoa

1ª publicação in Presença , nº 36. Coimbra: Nov. 1932.

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