Escritas em prosa / Rui Tinoco - Poesia

O mito da fundação das nacionalidades

A história que um grupo humano conta de si mesmo diz muito de si: no que efetivamente é incluído nessa narrativa mas também no que exclui e deturpa. Penso que pelo menos desde o Estado Novo é contada uma narrativa sobre a portugalidade em que se podem identificar, entre muitos outros, os seguintes aspetos:

Primeiro, a nacionalidade surgiu de um modo espontâneo e desde logo se notou uma vontade férrea de ser independente e de não obedecer a ninguém. Caricaturando: do nada surgiu o Conde D. Henrique que criou as condições para a independência que se viria a concretizar com o seu filho (esquecendo inclusive que a figura é de origem francesa).

Segundo, apesar do aparecimento de Portugal ter sido da esfera quase divina, existia qualquer coisa desse carácter indómito e heroico nos povos que habitaram o mesmo espaço. O maior testemunho disso é a tentativa de apropriação dos Lusitanos como pré-portugueses, esquecendo as raízes galaicas do nosso país (a capital da Lusitânia romana era na atual Mérida espanhola; enquanto que a capital da Galiza situava-se em Braga).

Deste modo, ignora-se o primeiro período da formação do país, o primeiro condado de Portucale, organização política com considerável extensão temporal (868 – 1139) mas que esteve sempre na dependência de um poder político exterior. Esta negação no inconsciente coletivo do nosso país revela muito do que somos e do que uma certa visão da história nos quis contar como nosso passado.

Se quisemos adotar aqui uma visão estruturalista, poderíamos perceber que as condições da independência do país se foram organizando num longo processo que lhe é naturalmente anterior. Para fazê-lo é necessário reconhecer laços de dependência e até de obediência em relação a outros poderes políticos no interior da nossa história.

Será que se poderia contar a história de Portugal de um outro modo diferente? A partir das dependências e das relações de poder e de dominação que aconteceram de um modo ou de outro ao longo da nossa história. Listemos alguns marcos:

– a dependência de Portugal foi declarada como uma mudança de vassalagem, isto é o rei D. Afonso Henriques passou a ser vassalo da Igreja;

– o modo como se conta a vitória de Aljubarrota sobre os castelhanos, escamoteando completamente a participação inglesa do conflito, em lugar de espanhois atuais que consideram uma traição esta aliança luso-inglesa;

– no suposto auge de Portugal existia uma certa relação de interdependência, digamos que assimétrica em relação a Espanha, por exemplo no reinado de D. João III e de D. Sebastião (Alcácer Quibir poderá ser encarado como uma forma de tentar modificar essa relação de forças);

– a aliança luso-britânica teve muitos momentos de assimetria em que variáveis de dependência da nossa parte foram bem evidentes.

Enfim poderia continuar a listar exemplos, aliás o realizador Manoel Oliveira fez o curioso filme Non ou a Vã Glória de Mandar em que se tenta uma narrativa da história de Portugal tendo por base as derrotas. De qualquer modo penso que se pode afirmar que, na imagem na memória coletiva nacional clivam-se momentos negativos, de dependência em relação a potências estrangeiras, em detrimento de uma narrativa mais gloriosa e recheada de vitórias.

Em relação ao Brasil fico sempre um pouco espantado com algumas reações em relação a nós, imputando-nos o tráfico de escravos, o roubo do ouro e outras formas de exploração. Já aspetos positivos como as batalhas de Guararapes ou feitos culturais como a presença de Marcos Portugal na corte de D. João VI no Brasil são totalmente apropriados…

É certo que o Brasil teve também necessidade de criar uma narrativa nacional obedecendo aos imperativos de criar uma lógica de orgulho e sentido a um grande, e heterogéneo, grupo humano. A clivagem aqui, e sendo como não podia deixar de ser esquemático, prende-se que o que aconteceu de mau, ou agora socialmente condenável, no Brasil colonial é imputado a Portugal. Por outro lado, o que aconteceu de bom e vitorioso tem que ver coma formação da identidade nacional do novo país.

Creio, como fiz questão de apontar a propósito de Portugal, que a realidade é sempre bem mais complexa e que na identidade do Brasil não deverá ser escamoteada a sua participação nas formas de exploração e desumanidade existentes na altura. Trata-se também de sistemas de exploração e viver humanos que foram trazidos por portugueses mas que foram sendo amadurecidos por gerações de luso-brasileiros, que tiveram a sua quota-parte de lucro nessas aventuras, até o sistema desejar a sua autossuficiência – também por motivos económicos (por exemplo a abolição completa da escravatura em Portugal data de 1869 e no Brasil de 1888).

 

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