Henri Michaux

AS MINHAS OCUPAÇÕES – Henri Michaux

 

É raro encontrar alguém sem que eu lhe bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.

Há pessoas que se sentam à minha frente num restaurante e não dizem nada, deixam-se ficar durante algum tempo porque decidiram comer.

Cá está um.

Eu arrepanho-o, truz.

Eu rearrepanho-o, truz.

Penduro-o no bengaleiro.

Desprego-o.

Rependuro-o.

Redesprego-o.

Ponho-o em cima da mesa, comprimo-o e sufoco-o.

Sujo-o, inundo-o.

Ele reanima-se.

Enxaguo-o, estico-o (começo-me a enervar, tenho de acabar), amasso-o, aperto-o, comprimo-o e introduzo-o no meu copo, e entorno ostensivamente o conteúdo para o chão, e digo ao empregado de mesa: «Dê-me então um copo mais limpo.»

Mas sinto-me mal, pago a conta de imediato e vou-me embora.

*

Henri Michaux, Antologia Lisboa, Relógio d’Água, 1999

trad. Margarida Vale de Gato

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