Jorge Vilhena Mesquita

Nota sobre a poesia de Jorge Vilhena Mesquita

Sempre nos atraiu o que se pode dizer sobre a poesia, não me refiro aqui à crítica literária, mas à inclusão do que está além do texto poético no próprio texto poético. Alguns grandes nomes da poesia chinesa faziam comentários aos seus próprios textos e também me recordo da poesia de Matsuo Bashô. No seu relato de uma viagem efetuada ao norte do Japão. A descrição do périplo é entrecortada com haikais nos próprios locais e contextos em que eles foram concebidos. São formas do autor aproximar a sua subjetividade daquela do leitor. Mais perto de nós José Gomes Ferreira introduzia os seus poemas com notas contextuais, reais ou ficionadas, que se relacionavam com o poema de tal forma que frequentemente fazem parte dele.

Será este um dos pilares da leitura da poesia de Vilhena Mesquita. Um outro tem que ver com uma vertente histórica. A inclusão de passagens históricas, quer sejam eles da grande história – isto é dos grandes acontecimentos – quer ainda de personagens como um soldado ou —- na tradição da Nova História, isto é personagens históricos reais ou ficcionados que se exprimem no poema é uma outra das “estratégias líricas” do autor. Esta densidade histórica, como matéria poética, interessou grandes nomes da poesia como Luís Cernuda e na nossa literatura Jorge de Sena. Já noutra notícia do Ladrão de Torras publicámos um texto de Vilhena Mesquita em que este pilar era bem visível AQUI

Na contribuição deste poeta para a revista DiVersos nº24, de que foi um dos fundadores, lemos poemas em que um contexto quotidiano ficcionado de um passado imaginário é matéria lírica. Trata-se de um longe que é longe mas também é perto, pois é reflexão biográfica, como por exemplo em Um Quinquagenário reflecte, em 1965:

 

Revejo a minha vida, que falhei;

da cepa torta já não sairei.

O impossível nem ambicionava;

a mediana, nela, me bastava.

Amei uma mulher que não me quis;

a profissão errei. No que não fiz

cogito, no que nunca aconteceu…

Procuro quem já quase me esqueceu,

apenas na presença desejado:

o irmão que resta, amigo do passado.

É nisso engano ainda a humilhação

do afecto decomposto em compaixão.

 

Neste exemplo, evidencia-se ainda a forma da escrita que, aliás, é transversal a outros trabalhos, a métrica e a rima que emprestam um outra densidade à leitura.

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