Jorge de Sena

«Em 590 AC» – Jorge de Sena

Em 590 AC (mais ou menos

Sólon de Atenas visitou o Egipto.

Visitou, é claro, os lugares turísticos,

e, como homem de saber, que era,

conversou-se longamente com bibliotecários e arquivistas

todos naquele tempo sacerdotes veneráveis.

Não sabia a língua dos egípcios. Mas

os egípcios – povo adiantado – tinham

uma escola de intérpretes em Saís.

Foi quando, falando de histórias antigas,

um velho sacerdote lhe notou que os gregos,

mesmo sábios e idosos como ele,

tinham curta memória das humanidades

pré-históricas ou não, e disse (talvez sem ironia):

«Sólon, Sólon, vocês os Helenos

nunca serão senão crianças. Não

há entre vós ninguém que seja velho».

O sábio e velho Sólon voltou

e contou à família muitas das histórias

que soubera no Egipto, mais antigas

mesmo que a Grécia das lendas e dos mitos.

Uma delas, na quarta geração,

foi escrita em nosso benefício:

a da Atlântida por Platão,

sumida num dia e numa noite

pelo oceano adentro. As ruínas dos impérios,

sic transiit gloria mundi, etc.

Na múmia desfeita ou não-desfeita

o sacerdote egípcio conserva um rictus

de irónico saber: os gregos eram

crianças sempre, e não havia um só

maduro e sábio velho em Hellas nunca.

Vinte e seis séculos passaram – grega

é hoje ainda a humanidade inteira,

e facto, mitos, lendas se misturam

nas más memórias com algumas luzes

flutuando soltas no oceano da

estupidez humana que imortais nos faz.

*

Londres, 16/3/1073 – Jorge de Sena

in 40 anos de servidão

 

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